GAIOLAS PARA PENSAMENTOS Rosita D'Agrosa 19.02 - 05.03.2026

Gaiolas para Pensamentos é a primeira exposição de Rosita D'Agrosa (Salerno, 1989) na Galeria Lucía Dueñas.
Formada em pintura pela Academia de Belas Artes de Florença, recebeu também uma bolsa da Fundação Il Bisonte para litografia e artes gráficas após ter concluído a sua formação artística. Durante os seus anos académicos, participou em diversas residências artísticas em Espanha, especificamente em Cordillera, Lleida e Artes by Mount.
A sua pesquisa artística é uma exploração contínua que combina pintura, gravura e experimentação têxtil, enraizada na sua história familiar. Estas técnicas servem tanto como meio como linguagem no seu trabalho, fazendo a ponte entre a poesia e a indústria têxtil.

GAIOLAS PARA PENSAMENTOS
Na série Gaiolas para Pensamentos (gabbie per i pensieri ), a palavra é o objeto de investigação. As palavras, entendidas como "expressões gráficas" do código linguístico, permitem que o significado do conteúdo escrito se mantenha imutável e estático ao longo do tempo. Precisamente pela sua capacidade de preservar, em vez de perder, a sua importância, a palavra escrita torna-se um "repositório" na imaginação do artista. Analisando o conceito de notas, memorandos e apontamentos, D'Agrosa chegou a uma reflexão muito simples e banal: "Anotamos tudo o que precisamos de nos lembrar, tudo o que não devemos esquecer e tudo o que é importante."
Não é por acaso que este projeto nasceu em 2020, durante o confinamento, quando todos fomos obrigados a isolar-nos e a manter o distanciamento social devido à pandemia. D’Agrosa criou-o com o único material que tinha disponível na época: uma tela metálica, na qual, como exercício meditativo e terapêutico, começou a bordar os seus pensamentos, os seus sentimentos, tudo o que estava reprimido e preso naquele momento. Transformando esta tela num presente para o Outro , ela deu vida a estas gaiolas leves, etéreas e floridas, em forma de recipientes de mensagens (em garrafas) para enviar aos seus entes queridos: “MI MANCHI” (Tenho saudades tuas), “TI PENSO” (Penso em ti), “ODI ET AMO” (Odeio-te e amo-te), “NON AVER PAURA” (Não tenhas medo), “DIVENTA CIÒ CHE SEI” (Torne-se quem é) ou “NON TI SCORDAR DI TE!” (Não se esqueça de si!). São mensagens de texto curtas, como as enviadas pelos telemóveis, destinadas a preencher virtualmente o grande vazio que o isolamento nos obrigou a viver.

DESOBEDITO
62 x 62 x 10 cm, rede metálica e fio de algodão

Esta pesquisa sofreu algumas alterações ao longo dos anos. Nos seus trabalhos mais recentes, D'Agrosa inseriu elementos gráficos que interagem de forma mais complexa e menos intuitiva com as mensagens bordadas, recriando uma espécie de arquivo emocional meticulosamente tecido no interior das jaulas.
As obras apresentam uma linguagem visual que oscila entre a estética digital dos pixéis e a paciência ancestral do bordado. Ícones da cultura pop, rosas clássicas e mensagens diretas coexistem num espaço tridimensional onde a sombra projetada na parede se torna parte integrante da obra de arte.
A Rede : Representa a estrutura racional, as barreiras que definem os nossos sentimentos. O Fio : É o elemento orgânico, a emoção que "habita" a gaiola e a transforma, convertendo-a num jardim suspenso ou num manifesto de rebeldia. Neste diálogo entre o metal e o algodão, o espectador é convidado a refletir sobre as suas próprias "gaiolas". Serão elas limites que nos sufocam ou espaços nos quais, apesar de tudo, aprendemos a deixar florescer a nossa identidade mais profunda?

Sei l'anello che spezza la catena
61 x 61 x 10 cm, malha metálica e fio de algodão

A minha mancha
29,5 x 22,5 x 3 cm, malha metálica e fio de algodão
"Gaiolas para Pensamentos" não celebra o confinamento, mas antes a indomável capacidade da criatividade humana de bordar a sua liberdade, ponto por ponto, precisamente onde parecia impossível.
A tensão entre a rigidez do ferro e a suavidade do fio reflete perfeitamente a nossa condição: uma estrutura que protege e, ao mesmo tempo, expõe; uma fronteira que define a identidade sem apagar a sua vulnerabilidade. Transformam-se em ecossistemas de resiliência onde o pensamento deixa de vaguear e começa a construir e a florescer.
Rosita D'Agrosa
